08 setembro 2015

Cecília Meireles - Antologia Poética



Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

(Motivo, Cecília Meireles)



Olá, pessoal! Tudo bem com vocês? Para quem leu o último post do blog (de séculos atrás), viu que uma das minhas últimas leituras foi a Antologia Poética da Cecília Meireles, lançada pela L&PM Pocket. Antes de mais nada, tenho que dizer que a Cecília entrou definitivamente para a minha lista de poetas favoritos e que eu tentarei não ser prolixa neste post.
Cecília Meireles é uma das maiores autoras da língua portuguesa. Cecília Meireles é uma das maiores autoras da língua portuguesa. A repetição não foi erro de digitação. Do tamanho de um Fernando Pessoa, da estatura de Camões, não esmorecendo em ombros com Carlos Drummond de Andrade. 

É desta forma que Fabrício Carpinejar apresenta a obra ao leitor e continua a desenvolver uma introdução brilhante.
Conhecida por sua obra de destaque O Romanceiro da Inconfidência, Cecília possui muitos outros textos da tamanho valor, o que é ressaltado por Carpinejar, mas que não ganham tanta visibilidade.
Organizada em ordem cronológica, a antologia apresenta poemas de diversas temáticas : a efemeridade da vida, sentimentalismo, lembranças, o eu, a natureza, e tantas outras...

VII

Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Por esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
(Cânticos, 1927)

Gostaria de destacar a forte tendência simbolista da autora, apesar de estar inserida num contexto modernista. São diversos os poemas sugestivos, musicalizados, acerca, principalmente, da água e do mar. A Cecília tem paixão pelo mar.
 Água é o meu próprio corpo,
simplesmente mais denso.
E meu corpo é minha alma,
e o que sinto é o que penso.

(trecho de Canções, 1956)

Diversas foram as sensações que tive ao ler, interpretar e absorver a visão da Clarice acerca do mundo, das pessoas e de si mesma. Tantas foram as vezes que me senti triste, feliz, saudosista, serena, que tive que reler diversas vezes o mesmo poema, que senti como se tivesse levado um tapa na cara, que tive que fechar o livro e ir dormir para digerir tantas sensações distintas. Enfim, foi  assim que me senti. Amei a leitura, me apaixonei ainda mais pela escrita e pela personalidade da autora e pretendo ler ainda muito mais textos dela. Indicadíssimo!

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 

Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 
Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 
E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu... 

(Vaga Música, 1942)
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